quarta-feira, 4 de abril de 2012

Série Mínimo

Há palavras demais, só há que escolher as certas,
Mínimas.

Inspiração: Drive e Wiliam Carlos Wiliams

quinta-feira, 29 de março de 2012

Consumido e Consumado (Banho)

Sentado
Deixo a água esquentada
Passar pelo meus ombros
Enquanto imagens escorrem
Por minha medula.
O gosto da maconha na boca.
O desejo de ópio e de Oriente
Me invade pela orelha
Em alguma música.

Carros varrem as ruas vermelhas
Do meu desejo,
Desbotando no lugar vivo o que não via.
Vias inteiras abertas fluem.
Força a porta um homem,
Não consegue entrar.
A jovem sim entra
Cheia de pernas
Enlaçando a carne lacinante
Antes de transformar-se em nada.
Tocando minha pele tambor
Suando o vapor que já existia
Em um gosto novo, sincero e salgado.

Antes entrava na nova vida
Agora afundo nela.
Carro mil cavalos rumando ao fundo
Engolido na areia negra.
Vento imbatível derruba tudo pela frente
Até empacar em uma cordilheira de árvores
Caídas.

Escalo, passo a pé, o ferro-velho
Depósito de máquinas enterradas na terra.
Quão engenhosos seus propósitos
Se alaranjado na chuva.
Talvez eu pise em um botão que me ejete,
Para outro mundo ainda.

Onde entre lagos e pastos
Ressurjo, Géiser, limpo, novo
Pronto para grande bravata
De mais uma noite na cama.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Pouco?

Será que não seria melhor
Ser somente um pensador
Sentar jogando palavras para o alto
Para gatos ou peixes morderem
Enquanto o mundo me arde no canto da boca?

Será que não seria mais agradável
Abdicar dessa pilha de quedas
De falhas que se apresentam infalíveis
Em toques que a tudo quebram,
Barro que depois de lindo e seco racha?

Talvez suficiente seria jogar um currículo
Conseguir um emprego em qualquer porta
Que garantisse o uísque e o tempo da noite
O livro e o espaço da cabeça.

Uma vida silenciosamente genial, clandestinamente bonita
Casos pequenos como um beijo
Grandes como uma cama.
Passos arrastados e dançantes
Sapato mal-lustrado em meio aos arranha-céus.

Uma vida
Despretensiosa ao extremo de desistir de ser o que sonha
De se bastar com tudo que não existe, sem culpa
Confundindo a existência sonolenta
Com o sono do sempre.

domingo, 11 de março de 2012

Tudo é tão pouco

A dor de sábado a noite
E a lágrima derramada no cinema:
Tudo é tão pouco
Enquanto continuo sentado
Sob meu próprio nariz.

A mão que toca tímida a outra
Já não é minha, nem de metal
O filho não é meu, nem o carro
Muito menos a casa.

Ainda o eco logo vem para preservar
O que sobrou de um palito de dente nervoso
Mastigado por uma mandíbula de madeira
Que ressoa caixa acústica
O longo silêncio da lua.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Roleta Chinesa

E de que vale tentar ser humano,
Se colocar entre silêncios velados
Formando triângulos e linhas
Entretessendo dentes e lábios?
Entre paredes, vendo por meio de vidros:
Vasos comunicantes silenciosos
Que não comunicam nada
Como tambores de freio.

Depois de décadas de décadas
De humanismo, devemos buscar
O exato contrário de ser humanos,
Nos desumanizar.
Ouvir um narrador de documentário
Contar sobre a solidariedade dos orangotangos.
Ser mais plástico em paz, sentindo sangue
Correr por dentro.

Nos tocamos, mas há pó incrustado em nossa pele
Luva de borracha que nos envolve, P
rotegendo do micróbio da des(graça),
Cobertor anti-sol ou tragédia.

Frente a isso
A menina aleijada arrasta a muleta,
Olha para os homens que a deixaram assim.
Chupando picolé e levantando a saia,
Despe suas pernas curvilíneas
Até chegar ao joelho salpicado de pinos de ferro
E sorri.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Estrela

Quando observo as pessoas passando
Vejo estrelas:
Sinto que brilham,
Imagino que estão mortas.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

tatuar no pulso: pequeno, tudo é pequeno...

domingo, 27 de novembro de 2011

Assim

Quero assim minha poesia:
Redonda como um pingo de chuva
Que não chega,
Em terra que só precisa dele.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Brasília



As cidades são serpentes de luz
Se engolfando em meio ao mar
De escuridão que é o mundo.

Suas ruas, em falsas retas
São a matéria de sua ilusão.
Quadras, superquadras,
Esquadrinhadas com esmero
Para esconder tudo que pulula
Sob o concreto.
Tudo de vasto e víscera,
Cujo sentido é varrido para baixo da pele.

Chove, chove a noite
E o espaço se esvazia,
Espinha de peixe após a refeição.
Rastros e rumores se arrastam
Pela via pública:
O povo que sobra, o povo que é.

Entre o banco e a rodoviária
Um Gol estacionado com um isopor
É um bar fora de lugar (?!)
A cidadade senta em um banco de plástico
Toma a saidera
E adormece.

domingo, 23 de outubro de 2011

Filosofia em verso (por preguiça)

A fácil felicidade após um filme
Mascara algo, ou é a verdade?

A arte é possível sem derrotismo
Ou é ela mesma, como criação imaginária
Assumir que a vida prática é impossível;
Enquanto como prática, a prova de que
A potência existe?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O devir e o dever

O devir sempre ofuscado pelo dever
Desviando antes que nasça o sonho
De a fruta cair da árvore em nossa mão.

O dever sempre um passo a frente
De qualquer pensamento que rompa:
Nunca consegui tirar a capa da faca.






terça-feira, 4 de outubro de 2011

Cardápio do almoço:
Massa ao alho e olho.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Três axiomas líricos


I
O vidro se expande por todo lado.
Invisível, a princípio não se revela
Mas cerca sorrateiro os passos
Dos que largam a escola, engolem sonhos,
Dos que colidem os carros fumando longos cigarros,
Dos que vestem ternos e tomam sorvete.

Quando o cotovelo desajeitado se estica
Quase sem querer em direção ao peão
Dilacerador e brilhante
Que gira dentro de todos os nós,
Vemos o vidro transparente
Quebrar destemperado:
Enchendo de gosto (sangue ou sorvete?)
A vida de quem ousa.

II
A vida não importa.
O que importa é o que fura a vida,
Para fazer dela algo sonoro, que valha,
Ou para com ela acabar.

III
O significado das coisas, quando se começa a buscar
É como o momento em que o mágico começa a puxar da cartola
Aqueles lenços coloridos, atados uns aos outros, longos pra caralho
E espera que eles acabem, que parem de sair da cartola, preocupado com os espectadores
Que já cansam dos minutos, horas, dias ininterruptos,
Preocupado com os panos que já enchem todos cantos da sala com suas rebarbas Ásperas
Não sobrando espaço nem para encontrar a janela de saída.
E o mágico se vê escravo do truque, dos tecidos, que englobam, mostram cegando,
Em um Número infinito, dança do cavar a própria cova
Inevitável, a quem começa.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Ligeiramente

Deitou sem nenhuma reclamação
Específica, com um desejo simples:
Que o travesseiro fosse um lexotan
E os dedos não escapassem do cobertor.

Acordei antes de ter adormecido.
Algo no semi-sono gritava negro como
A pupila pós dia de matança ou festa.
(No fim não é igual?)

Despertaram assustados como o despertador
Todos lados da discórdia dizendo sim
Entre quatro paredes e duas orelhas.

E vimos dentro e fora.
Os livros cabeçaprabaixos na prateleira
Uma chibatada e os pés correndo abertos
Arrastando terra pelos lados:
Tudo ligeiramente fora do lugar

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Da morte Segunda

O desejo de um estado de sítio
Qualquer, até o fim do estado.
Onde há muita vida há muita morte?
Por que não os dois assim
Gozo e sangue?
Não, não suportamos nem o peso
De um simples saco de batata.
Gozo e sangue?
A felicidade na lesão?
Sim,
Deixa para os supersantos
Campeões do desejo completo
Que vivem no imaginário de
Qualquer boate de porão.
Esses que tocam o tempo como
Se fosse alguma massa
Com molho seco jogada na geladeira.
Para quem o brilho do pingo de cerveja
Derramado no sapato ofusca a luz do poste
Que o ilumina.

Ainda melhor do que o dia
Onde as segundas forem infinitas.
Viu um nó de gravata mal-feito
Sem gravata, só aquele losango
Irregular, informe, em sonho.
Acordou gritando como se fosse o último suspiro
De um tempo por vir.
E pedindo: Não para mim senhor almofada de dentro!
Cadê o estilete e as plumas, as ruínas, as rumbas?
Digo, como se corta tudo isso, ou pior como se liga?
Se ordena em pirâmides seladas por números. Romanos, talvez?

Não vamos sentar na privada
Deixar o mundo desaparecer em jornais,
Até voltar para sala e acender outro café?
Devolvam-me o gozo e o sangue logo!
Porque as baratas levantam as antenas
Antes que nós as orelhas do travesseiro
E nos escutam antes que pensemos em dizer....

domingo, 4 de setembro de 2011

Em dia de calor, até pássaro negro se derrete.



Ela viu o laranja do guarda-sol em dia de verão nublado,
Descolou o pé da sapatilha, colocou fundinho na terra.
Era tarde, era praça e os músicos de rua bailavam o povo
Com suas violas, guitarras, trompetes, saxes e jazzes.

O vestido verde água dela, curtinho, se ensaiava ao vento,
Mas o corpo seguia como o pé, enterradinho na terra.
Pegou a máquina e decidiu fotografar, capturar para amanhã
Os movimentos que não eram seus agora. Queria gravar as estranhas
Expressões que aparecem, quando se congela os que se mexem.

Então, cuidadosa, começou a rodear os dançarinos, em seus pares
Coloridos, ímpares, cantando com as pernas em meio à música instrumental.

O click da máquina, o claque do pé, o click da máquina, o claque do pé
O mundo comovendo-se, mirado por um olho só, parando o momento.
Do sol a uma mão, a outra, ouvido o ritmo, da música, do pé, da lente.

O click da máquina, o claque do pé, o click da máquina, o claque do pé
Como queria ela também dançar, ser orgânica, fluida, tardia à tarde,
Cansada de ser artista do tempo curto, de ser exata, relógio da imagem.

O click da máquina, o claque do pé, o clique da máquina, o claque do seu pé
De repente, deslizava os dedões e dedinhos dentre os grãos de areias,
Tão formosa quanto desajeitada, como a câmera balançando ao pescoço.

E preocupava-se será: que a lente não vai quebrar? Será que a lente
não vai cair?
É nova, é da América, é de quartzo. Porém agora ela que era nova,
da terra, de carne
Vida vivinda de não sei donde, vingando, na planta do pé, dando sentido as pulseiras
Flourescentes que sempre floriram seu tornozelo redondo, potente.

Deixou a câmera em um canto, escondida por folhas caídas e se esticou,
coxas para o alto, braços aos céus.
Mas poderia ela, soltar-se assim?(e o êxtase a tomava) De que valeria
aquele momento
Se logo tudo voltaria ao cinza das nuvens? (e notava que pensar já não valia)
E se perdesse seus olhos pesados? (o vento ventava ela toda, bailava em
marcha reta a uma luz qualquer,
Sabia que nada importava e não se importava com isso)

Do nada, nada em sua cabeça, aquele silêncio cheio, copo d’água para
ressaca da alma
Enquanto o mundo todo gritava a ela em raios luminosos, a música acariciava
sua pele
As unhas de outro, polidas, tocaram os dedos delas, roçaram o peito,
molharam a íris
Entrelançava-se sorrindo àquele corpo desconhecido, como nunca,
Sentia sua tez negra, lisa, moviam-se improvisando, traço e compasso
e deslizes.
Já era noite e o sorriso descansava aberto, em frenesi vidrado.
A luz dos lampiões faziam o escuro mais dia que o dia, e se somavam a ilusão,
O que tinha dentro brilhava tanto que se espalhava até voltar,
juntando corpo e olho.

Então notou que uma mancha rápida, um pivete qualquer desaparecia com a
sua câmera.
Fingiu que não viu e continuou a bailar, embalada.
Sentiu uma lágrima escorrer-lhe a face, depois de anos:
Não sabia se de alegria ou tristeza e por isso ficou intensamente feliz.




terça-feira, 23 de agosto de 2011

Reflora

Cercado de coloridas flores decepadas
Dispostas em tapete não ritual,
Caminho descolhendo uma a uma
Colocando-as de volta no caule da minha orelha
Para que desapareçam.

Lentinho entronco manso, sem raízes,
No chão da minha antiga terra.
Já toco a água do rio
Sem medo dos crocodilos,
Vejo até com dois olhos
A fumaça da fábrica
Embelezando o pôr-do-sol.

Talvez meio por meio dos outros
Tenho de novo a mim.
Menos chumbo e mais junta,
Analisando como um seio
Cada aro da corrente
Que ainda prende meus pés.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Qual a distância entre teu sorriso
E os teus caninos?

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Despir

No quarto emadeirado
Com detalhes de veludo
Acendeu o incenso indiano.
Ligou a vitrola e colocou
Um disco de jazz sensual.
Limpou a cama dos livros
Para dar-lhe o devido uso.

Deslizou a mão sobre sua pele
No mesmo sentido dos pêlos,
Chegou perto da braguilha.
Abriu com suavidade o botão,
Vibrando viril, voluptuoso.

Viu com prazer o friccionar
Das calças Lee nas suas pernas.
Soltou as presilhas da blusa
Uma à uma, lentamente
Atento a cada sensação sua
Suspirando sereno em cada toque.

E deitou-se desejante
Após espalhar cuidadosamente
As roupas no chão do quarto.
Queria acordar na manhã seguinte
Pensando que havia feito amor.

terça-feira, 12 de julho de 2011

De novo veia


De novo veia!
Pulso que repulsa noivamente.
Escorre, escorrega pelo quarto
Feito limonada de sonhos.

Fazem-se surdos os gestos que amassam
Catalisam uma revolta simples de
Quem já tocou o bicho de pé no chão.

Pego meus panos e amarro planos
Antes deixados jogados feito trapos.
Busco com corda de mágico
O balde ótimo que atirava
Para o fundo do buraco de barro:
Ainda há terra húmida, umana
Emanando do meu bucho.
Ainda A fome, mas sabe, existe fome que brilha!

A boca suga como aspirador de porta
Traz a janela de volta a soleira da mente
Torcendo a casa inteira, espiral de madeira.
Olho para dentro dele e vejo algum mim
Que quero.

Me atiro armado de máquina
Fotográfica com ponta de baioneta.
Vou gravar a imagem do novo no peito
Sangrando de quem toco e vejo.
Vou matar o medo, chupar sua imagem
E cuspir na minha própria cara de qualquer um.
Enfim ir. Ah... Finalmente rir!...