segunda-feira, 4 de julho de 2011

Trocas de frente

A sua face estampadava toda:
Anúncio de jornal complexo
Reforma rasante no falso.
Dizia as palavras inditas
Brilhava as benditas
Gemia as profanas:
Em olhos gema
Trocando cor.
Eu tétentava
Rosto, mas
Frente a
Essa
Era
Só
.

(Enquanto, inapto, me sorria todo por dentro)


quarta-feira, 29 de junho de 2011

Me reinvernando

As palavras dela
Vinham de um café
Carcomido e vermelho
Em frente à linha de trem,
Longe como a água.

As minhas quando começaram
A renascer voltaram ao chão,
Empalavraram em pedra
Frente ao vento viloz:
Agora já tenho onde pisar.

Adendo:
E não é que ao meu pé,
Vejo um pé de amoreira:
Já com folhas suficientes
Para resistir ao inverno
Ou gerar um livro.
Ter todas palavras do mundo na soleira da janela é benção ou maldição?

terça-feira, 28 de junho de 2011

Um novo poema de inverno

A neve caindo gentilmente em leves flocos.
A neve caindo gentilmente sobre o metal.
A neve caindo sobre um caminhão.
A neve amassada sob um caminhão.
A neve vira fumaça que tudo crispa.
O branco lento sujando em cinza.
O boneco de neve tem agora nariz de chave de fenda
Em frente ao lago onde o grande ringue de patinação se engendra.
E onde se encontra inspiração para as letras do caderno?
Na pureza violada de um novo poema de inverno.

sábado, 18 de junho de 2011

A(s)cendendo número III

Gentilmente azul em uma tarde do fim
Dedislizo sobre as tuas costas notas
Vítreas, vagas, (re)voltando-se contra
O vento que ruma ao centro, cinzento.
Desleixando-me em esparronronadas ,
Concentricando-me em tua costela catorze
Sinto que esse é o paraíso desperdido.
A manta da noite cerra os olhos.
Nossa luz lampiãojada é o sal do céu
A bruma míngua ao ver as quatro cristalunas
Que pontingüam nossos rostos sardentos.
Simétricando-me em teu quadrilíquido,
Santalma mista ao murmúrio feminásculo
Marcho interno por tindo por tando
Ao ritmo Ravélico, rabínico, ramado
Rente a rua, lá fora, longe, lua.
Riotórrido correndo em corrente rítmica
Empapando-se de tempo livivido e rosado.
Ruindo a rasão, intuindo um toque sentido
Sabiamente manso, sabiamente crescendo.
Sabor de sul, de calor, cascas de laranja
Sabor de carta, sabor de carne, sensabor sem fim.
Descastiçal explosivo de fogos de artifício naturais
Em ascensão até o céu negado aos que lá moram.
E que vaivolta fácil, fecundo, fiodetudo, faztátil
Afasta e vem e criamando calamitoso calardente
Canta tortura tântrica, tontura atôlmica
Tateando enfim, em um pestanejar de óculos
A face estampadada: o finício do infinito prazer.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Hall de entrada

Vi um novo hall de entrada
Tinha quadros de formas arredondadas.
Uma poltrona confortável
Tão confortável quanto pode ser,
Uma poltrona de hall de entrada.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

menina preto pupila papoula

Se deus me criou, posso criar a deus.
A reciprocidade é uma infecção subcutânea.
Digo, olhei para o céu, era preto-pupila,
Cor da papoula e dali surgiu uma menina
Com uma mesa virada verde na mão.

Cotei suas costas
De nada valiam,
Como queria,
Carta viva na manga.

E beijou-me sem ser pedida,
Dançou os meus pés.
Fêmea que afagava
Com os dedos meus nervos
Com os seios meu peito,
Com cortes meu coração.

terça-feira, 24 de maio de 2011

(Re)Volta à Porto Alegre

Sente o cheiro do progresso
Na lapela da camisa:
Sopro de quem ajuda
Depois de pensar.

A simpatia envergonhada
Do meio sorriso:
Pensando em resultado
Se faz a piada.

Igual posso rir, chorar e cuspir
Me jogar no rio para de todos espanto!
Ainda encontrar companheiros para desesperada cerimônia,
Um dia do mês.

Fazer da cidade um plano mental
Onde as direções sejam curvas,
Ônibus só trafeguem por uma esquina.
Achando coragem para furar o silêncio,
Ainda.

Serão meus dedos mais rápidos
Que a velocidade das moscas, muros, músculos?
Sempre tenho uma pequena faca no bolso,
Que pouco uso.

Também tenho um canudo longo
Inspira sabores e sons
Expira trivialidades que vingam no profundo.
Espero que o vejam e ouçam.

Temida casa és,
Amores aí encontro.
Mas agora vôo
Vôo.

sábado, 14 de maio de 2011

Gentil macio vadio.
Arcavante do primeiro.
Passo perdido,
Sem medo do espinho,
Sempre gritando,
Igual.

Formas se amorfam
Quando nelas toco.
Estou viciado em minhas mãos,
São lunetas da verdade corpo
O símbolo do sim.

Sandália soldada no assoalho.
A sua logo a minha.
Saída suada sangra.
Agora. Vamos. Vou.
Fui.

domingo, 8 de maio de 2011

O amor sob o pano

O amor que se esconde para ter que vingar,
Que obscuro se tem que regar,
Para o fruto não aparecer rápido,
Para que o povo não veja e se assuste.

Palavras sempre medidas visando efeito.
Silêncios para atrair fluidos ,
Chamando pela ausência:
Resta um a dois,

Jogo estratégico de vidro e sopro,
Fontes de letra retas,
Voz entrecortada.

Esse tempo não é para mim
Quando amo grito como com raiva
Para que tem ouvido de grito.
E meu cochicho é carícia
Para quem entende o delicado.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Fingindo ser quem eu era, já que não sei mais quem eu sou.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Finito, o ainda não maldito

Finito cansou de levantar bandeiras. Lênin para ele tinha se transformado de Deus em uma Madonna de barbicha. E se cansava de ouvir gente reclamando do consumo e da poluição e do fim do verde e das relações liquidificador, como se a humanidade não tivesse o que merece, ou como se o mundo fosse feito de algodão. Acordou aquela manhã somente para sentir o sofá massagear suas costas, como faziam a mãe ou a última amada, há muito tempo idas as duas. Tinha decidido viver como se a vida fosse um cigarro e as pernas fossem feitas para se apoiarem nas paredes. Aceitava o desinteresse e o tédio, sentia saudades deles quando se excitava. Um dia foi passar o fim de semana em Brasília, para o casamento de seu tio-avô. Na volta os amigos perguntavam: “ como é lá, e a asa norte e o Renato Russo e os prédios do Niemeyer.” Ele respondeu: “É bom, lá comi um cachorro quente delicioso, eles põe purê dentro, é como concreto, feito para as partes não caírem, mas tem gosto de batata.” E mais nada. Dedicado ao silêncio convicto, esse é Finito, um excluído com preguiça de tornar-se um maldito.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Sister Ray

Hipnose repetição mescla e grito.
As duas se misturam, suas pernas, seu sexo.
Tenho medo, medo.

Elas vão morder
Me arranhar forte, sangue
Me fazer alto, forte, doído.

Se tudo se derrete de que vale pensar?
É irreal como as baratas na sala da madame
Ou uma rachadura de um prédio com inço no centro.

O gingo da vassoura
Morfina que renasce dos ossos,
Da última cirurgia forçada.

O olho do ritmo,
Do touro. As chaves de molho
As portas abertas, a culpa no quarto dos fundos.

A moça com nome de vírus
Visitou-me a noite
Estourou dois balões com a boca.

A ética do tesão,
Do controle esquecido
É mais real, é mais falsa.

Acho que não estou pronto para o couro.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Sombra, rainha da direção
Assassina do movimento.
Sendo sua homogeneidade
Uma invenção humana
Ou o humano invenção dessa.

A civilização, só mais um
Grande empreendimento do Conforto,
Com seu infinito potencial
De construir e sentar.

Nós, aves planando cheias de
Ditos bonitos e repetitivos
Que as vezes entendemos
Quando chove antes de deitar.

Você, intocada e intocável
Sentada em um café bem iluminado.
Usa tua voz moça, soa o meu dia!
És o perigo e o sentido do vagar
E mereces meu córrego tranqüilo.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Eu iludido, ou a metáfora dos fósforos.

Ele guardava os palitos usados
Dentro da caixa de fósforos.
Não gostava de distinguir os vivos dos mortos.

Temia mais o prenúncio que a consumação.
O amor mau-respondido
Antes do não definitivo.
O tropeçar e a testa no chão
Antes do marulho do caixão.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Cidades são mulheres (o mijo e a mágica)

I
O cheiro de mijo
À noite alguém
Encontrou bom abrigo.
Essa praça era cheia e minha
Agora só os ventos e seus perdidos.
Perde-se uma cidade como qualquer coisa.
Posso perder-me nela agora.
Enquanto formamos o mapa ou enquanto
Esquecemos o que lhe formou:
O tato aí existe, os dedos aí são dedos.
Embrenhamo-nos na bruma de fios e água.
II
A mulher também é uma cidade.
Seu centro é um subúrbio daqueles,
Onde os vulcões crescem e implodem
Antes de sabermos porquê.
Nas suas ruas os perfumes são extasiantes:
Correm pelas sarjetas junto aos carros antigos,
Junto aos vendedores de castanha de caju.
Quando se cai em um buraco do pavimento
Nunca se chega ao fundo.
Uma boca come o que as outras falam.
E não existe passo pensado ou sem motivo.

terça-feira, 15 de março de 2011

Reminsescências, por que não minguam?

Acordei hoje pão dormido
Duro, seco, sem esforço de ser gostado.
O gosto de maçaneta na boca
Da porta que não se entrou.

Na saída da estrebaria encontrei uma ferradura.
Pelo pó nela incrustado
Sabia os lugares pelos quais ela havia passado.
Segui a trilha a que ele me levava,
Acabei na mesma estrebaria.

Os vagões do trem se dividem
Em uma encruzilhada, caminho qualquer.
Nunca se juntam de novo.
A memória às vezes parece mais real
Do que vemos ou ouvimos.

Os encontros desencontram as canções
Que calcaram no couro da pele seus porquês.
O pé segue se arrastando tchh...tch...
E da boca salta um suspiro abafado pela mão.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Só queria andar

Passo, passo, medo e passo.
Por que cheguei? Só queria andar.
Mas vocês vem com suas idéias de que há um mundo
E ele precisa de bolachas, brinquedos, sapatos.

Sentado ao ver o mar, o mar de movimento das massas,
Esqueço do oceano vasto da solidão:
Quando toco essas massa, ou onda,
Quando converso bebo brinco mergulho.
As vezes é dias de fusão e nesses sim Sou.
Também a máquina para. Energia é recurso infinito.
Torno-me a chave de fenda trancando as engrenagens.

A água transparente que me banho é a potência das potências.
Se converte além disso, quando a telha nos dá,
Em gigante gelatina, mãe d'água sem filamentos,
Me abraçando, vetando meu flanar.

Quem se demserece agora?
O mundo a eu ou eu ao mundo?
No instante seguinte transmuta-se belo,
Mesmo se gélido, em montanhas de imundos.
A dupla fronteira da alma:
O lado de dentro, o lado de fora.
A múltipla fronteira da conquista,
Melhor. As categorias derretendo pela manhã
E a gente se expandindo feito um tênis
Pisando um grande chiclete preto.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Será que a conseqüência é o juiz do ato bem executado?
Seria em um mundo de atores belos e amantes da beleza.

terça-feira, 1 de março de 2011

Córte

Erva daninha, sujeito da história.
Cresce invisível ao pé da cama,
Quando notamos já somos fantoches
Dessa rubra máscara vazia.

Números escorrem líquidos por debaixo da porta
Enquanto se escutam os passos por detrás dela.
Será que é possível um ardor de entrega
Que nos acompanha como sombra?
Talvez não tê-lo seja sempre trair a quem se encontra.

As aranhas já tecem a minha volta
Quando recém deitei, nem sonhei.
As vejo, as entendo, mas fico imóvel.
Parece que é esperar assim por algum aspirador
Ou romper tudo de uma só vez.

Levanto com braços de espada
Corto laço após laço, cabeça após cabeça,
De amigos queridos, carrascos infantis,
Irmãs de sangue, padres de palavreado vago,
Ídolos idealizados, amores perdidos e encontrados.
A nação e seus ancestrais, a mãe, o pai.
Enquanto rolam os membros e cintos,
Deslumbrado de terror e êxtase
Danço a capoeira que não sei,
Uso o ábaco qual nunca usei.
A melodia mais bela explode do pulmão
Só para os comparsas deste deserto de sal.
O peito pressente a cápsula ou a lâmina:
Por não temê-la segue aberta sem encontrá-la.